"Diabetes em Crianças e Adolescentes": tema do Dia Mundial do Diabetes- 14 de novembro

29/10/2008 - SEGS


Lutar para que nenhuma criança fique sem tratamento ou morra por causa do diabetes é o desafio social que a International Diabetes Federation (IDF) propõe ao mundo. A proposta baseia-se nas novas estatísticas da entidade que revelam que a cada ano mais de 70 mil crianças desenvolvem diabetes tipo 1, chegando a 440 mil crianças com menos de 14 anos acometidas pela doença em todo o mundo. O diabetes tipo 2, que antes era característico do adulto, avança sobre os jovens, alcançando as crianças, especialmente entre minorias étnicas.

O aumento de casos do diabetes tipo 2 na infância e na adolescência é decorrência da epidemia mundial de obesidade e da falta de atividade física. Atualmente, mais de 200 crianças desenvolvem a doença a cada dia. “Por isto, neste ano, como em 2007, o tema de mobilização da entidade que representa os diabéticos em todo o mundo deseja reforçar a necessidade de fornecimento de medicamentos e a institucionalização de programas que disponibilizem alimentos saudáveis e que incentivem a prática de atividades físicas para crianças e adolescentes em todo o mundo”, afirma a endocrinologista Ellen Paiva, Mestre em Medicina na área de Nutrição e Diabetes pela USP e diretora do Centro Integrado de Terapia Nutricional, Citen.

O diabetes é uma das doenças crônicas mais comuns na infância. Pode surgir em qualquer idade, até mesmo em bebês e em crianças em idade pré-escolar. Se não tratado adequadamente, pode causar complicações graves, que englobam a perda da visão e a amputação de membros. O diabetes tem um impacto particular na vida dos jovens e de suas famílias, pois o dia-a-dia é alterado de repente: medições de glicemia, aplicação de insulina, regulação da atividade física e da alimentação. Por isso, é necessário prestar assistência às pessoas que convivem com as crianças e com os adolescentes diabéticos. “A orientação à família tem por objetivo fazer com que os mais jovens cheguem à idade adulta sem nenhuma complicação, entendendo e atuando ativamente nos seus tratamentos, com autonomia, independência e cientes de que suas limitações dependerão da forma com que eles encaram a doença”, alerta a diretora do Citen.

Conversamos com a endocrinologista Ellen Paiva sobre a maior vulnerabilidade de crianças e adolescentes ao diabetes e suas complicações crônicas. Na entrevista a seguir, a médica fala sobre taxa de mortalidade da doença, tratamento, papel da família e sobre a possibilidade de cura.

- As crianças são mais vulneráveis à doença?
Ellen Paiva - As crianças são mais susceptíveis à falta da insulina, não podem esperar muito tempo pelo tratamento sem a medicação, pois a elevação da glicemia pela falta de insulina se agrava rapidamente num quadro chamado de cetoacidose - uma complicação aguda e grave do diabetes dependente de insulina. Além dessa grave complicação aguda, as crianças são mais vulneráveis às complicações crônicas como a cegueira, a insuficiência renal e o grande leque de conseqüências chamadas neuropatias. São mais vulneráveis uma vez que convivem mais tempo com os elevados níveis de glicemia dado à precocidade da instalação da doença.

- A IDF - International Diabetes Federation - vem registrando um aumento do número de mortes causada justamente pela cetoacidose diabética no mundo. Como a senhora vê este quadro?
Ellen Paiva – É vergonhoso, mas a maior causa de morte em crianças diabéticas no mundo ainda é a falta de acesso à insulina. Isso pode parecer absurdo, mas é a dura realidade de alguns países pobres, onde a falta de acesso à insulina ou às condições de acondicioná-la adequadamente, numa geladeira, torna impossível o uso do hormônio e o tratamento destas crianças. A expectativa de vida para algumas crianças com diabetes na Zâmbia é de 11 anos, em Mali, é de 30 meses e, em Moçambique, as crianças com diabetes tipo 1 morrem um ano após o diagnóstico da doença.

- Até pouco tempo atrás, o diabetes era conhecido como tipo 1, diabetes juvenil, ou tipo 2, diabetes adulto. Recentemente, as entidades que trabalham com a doença têm chamado a atenção para um crescimento do número de casos do tipo 2 em crianças e adolescentes. Este aumento pode ser atribuído a que fatores?
Ellen Paiva - Ao avanço progressivo da obesidade sobre as populações jovens. Em alguns grupos étnicos, o diabetes tipo 2 alcançou ou até ultrapassou a forma mais comum do diabetes infantil. Durante o 19th World Diabetes Congress, realizado na Cidade do Cabo - África do Sul, a IDF apresentou um cenário pessimista: a atual geração de crianças vai enfrentar a luta contra a crescente epidemia de diabetes tipo 2. Se não forem tomadas atitudes para reverter as tendências atuais, quando esses jovens estiverem com 30, 40 anos, mais de 380 milhões de pessoas estarão com diabetes. Dados recentes indicam que 1 em cada 3 crianças nascidas nos EUA terá diabetes. Nas crianças pertencentes às minorias étnicas esse número sobe para 1 em 2. Pesquisas recentes informam que na China, no Japão e nas Ilhas do Pacífico, 70% das crianças diagnosticadas com diabetes têm o tipo 2 da doença.

- A dieta destes povos é fator determinante para o aumento de casos de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes?
Ellen Paiva - A explicação para esse fenômeno vem das rápidas e drásticas mudanças na dieta da população, no baixo nível de atividade física e no aumento do peso corporal das crianças de todo o mundo, em especial das crianças asiáticas, que passaram a consumir mais gordura animal, mais carnes, mais açúcar e menos frutas, vegetais e cereais. As mudanças de estilo de vida vêm sendo incorporadas pelos povos ocidentais também, que, em menor proporção, vêm sendo afetados pela obesidade infantil e pelo diabetes tipo 2, e, conseqüentemente pelas alterações do colesterol, pela hipertensão arterial, pela infiltração de gordura no fígado e pela maior incidência de doenças cardíacas em pacientes cada vez mais jovens. Apesar de sua aumentada taxa de incidência, o diabetes tipo 2 compreende apenas 3% do diabetes em crianças e adolescentes, quando considerada sua prevalência global.

- O diabetes tipo 1 continua, então, prevalente nas crianças e adolescentes?
Ellen Paiva – Sim, o diabetes tipo 1 é aquele onde a criança depende de suprimentos exógenos de insulina para viver. De acordo com a IDF, 70.000 crianças desenvolvem esse tipo de diabetes anualmente. Cerca de 440.000 crianças abaixo de 14 anos têm diabetes tipo 1, em todo o mundo. Trata-se de uma doença auto-imune, onde uma produção maciça de anticorpos contra o pâncreas destrói as células produtoras de insulina, interrompendo a produção do hormônio e inviabilizando a vida sem insulina exógena. A incidência desse tipo de diabetes vem aumentando também, de acordo com estudos europeus e americanos: foi de 14,8 (entre 1978/1988) para 23,9 casos por 100.000 habitantes por ano, entre 2002/2004.
 
- Para a maioria das crianças diabéticas e seus pais, a hipoglicemia noturna é a complicação aguda mais temida da doença. É possível preveni-la?
Ellen Paiva – A hipoglicemia noturna acontece porque as necessidades de insulina durante o sono não são constantes. Este perfil propicia quedas glicêmicas perigosas entre 2 e 4 horas da madrugada que podem passar despercebidas, devido ao próprio sono e à uma natural elevação da glicemia pela manhã, devido à participação de alguns hormônios. As necessidades de insulina noturnas variam de acordo com a escolha alimentar do jantar, com os exercícios físicos realizados ao entardecer ou à noite e até com os hormônios relacionados à puberdade, tornando difícil a titulação da dose de insulina que atenda à normalização da glicemia e à proteção contra a hipoglicemia noturna. Além da monitorização contínua de glicose, as novas insulinas e seus análogos em esquemas de aplicação que imitam o perfil do pâncreas normal e as bombas de infusão de insulina tornaram mais segura a vida destes pacientes durante o sono, permitindo também que seus pais possam dormir menos aflitos.

- Uma vez que a criança passa grande parte de seu dia na escola, ela deveria encontrar, neste ambiente, profissionais treinados para assisti-la e perceber alterações comportamentais causadas pelo diabetes, nos casos de hiperglicemia e hipoglicemia, não é verdade?
Ellen Paiva – A escola, ao saber das patologias crônicas de seus alunos deve adequar-se e atualizar-se para atender estes alunos da melhor maneira possível. Quando a escola recebe alunos com diabetes deve manter equipamentos para realizar a medição de glicemia, como o teste com punção digital, que é fácil e prático de ser realizado. Deve também informar aos professores sobre a doença, para que eles possam perceber as alterações sugestivas dos extremos da glicemia.

- A que tipos de sinais o professor deve estar atento?
Ellen Paiva – As alterações no comportamento destes alunos são, por muitas vezes, sutis, e o professor deve estar atento ao aluno com diabetes que, por exemplo, se torna dispersivo, desatento, sonolento, irritado e inquieto. Todas essas alterações são possíveis indícios de hipoglicemia e são corrigidas com suprimento alimentar, como um suco de laranja, que corrige rapidamente pequenas baixas de glicemia. Quando a queda da taxa de açúcar no sangue é mais intensa, a criança precisa de suprimento de glicose, como por exemplo, um refrigerante com açúcar ou água com açúcar. Com relação à possibilidade de hiperglicemia, os sinais mais importantes que devem ser observados pelo professor são dificuldades visuais, como a turvação de imagens, e o excesso de eliminação de urina, que obriga a criança a ir ao banheiro várias vezes ou ao bebedouro com freqüência, para atender à sua necessidade de maior ingestão de água.

- A descoberta do diabetes torna a orientação familiar um ponto fundamental no tratamento da doença na infância, isto porque não há possibilidade do tratamento adequado, sem uma dieta adequada.  Como é feita a orientação nutricional da criança diabética?
Ellen Paiva – Há dois exemplos de famílias resistentes às mudanças na dieta em função do diabetes. O primeiro é o da família da criança obesa e caminhando para o diabetes não insulino-dependente. Fazê-los entender que os hábitos familiares estão levando a criança ao diabetes e que isso pode ser evitado, caso haja mudanças no comportamento de toda a família é um desafio. O segundo caso típico  é o da família da criança com o diagnóstico do diabetes tipo I ou insulino-dependente. Fazê-los entender que precisam encorajar a criança a assumir seu tratamento, sem se tornar uma vítima da doença ou se sentir doente e diferente das outras crianças. A orientação nutricional da criança diabética deve ser individualizada, através da percepção da possibilidade de cada paciente e de cada família. Logo, muitas vezes, a melhor orientação é baseada em informação gerais sobre as porções dos vários macronutrientes e seus substitutos. Em outros casos, é possível sofisticar ao máximo a orientação nutricional e fornecer orientações de contagem dos carboidratos e outras informações nutricionais mais complexas.

- A passagem da infância para a adolescência traz várias mudanças, inclusive no tratamento do diabetes. Por causa das oscilações hormonais, torna-se mais difícil controlar a glicemia?
Ellen Paiva - Na adolescência, além das alterações hormonais, os fatores que mais dificultam o tratamento são a natural rebeldia e a passionalidade características dessa faixa etária. O adolescente passa a sair sem a família, a fazer suas próprias escolhas alimentares. Nessa faixa etária, nossa consulta e aconselhamento devem ser direcionados a eles, para que uma relação médico-paciente de confiança e amizade possibilite e incentive a participação dos adolescentes  em seus tratamentos.

- Como estão os avanços científicos no sentido da busca da cura para o diabetes?
Ellen Paiva - Várias frentes de pesquisas estão em andamento no sentido de buscar a cura para o diabetes. Terapia gênica, células tronco embrionárias, transplante autólogo, transplante de pâncreas e de ilhotas, cirurgia de “by pass” gástrico. Estas possibilidades de tratamento ainda não representam a cura da doença, mas soam como bálsamo aos ouvidos dos pacientes diabéticos e seus familiares, que entendem que apesar de ainda não termos  respostas definitivas para oferecer-lhes, muito temos estudado e investido na procura da tão sonhada cura. Muitas pesquisas têm sido realizadas à procura de novos tratamentos para o diabetes e uma das mais recente delas foi realizada em Ribeirão Preto, São Paulo. O trabalho ganhou as manchetes das revistas médicas e da imprensa de todo o mundo. Trata-se do primeiro transplante autólogo de células tronco adultas, onde o cientista utilizou células da própria medula óssea dos pacientes com diabetes do tipo I ou insulino-dependentes recém-diagnosticados. Os resultados são animadores, quase todos os pacientes voltaram a produzir insulina, após a realização do transplante. Tal procedimento ainda é extremamente agressivo e arriscado devido à quimioterapia a que eles devem ser submetidos para propiciar imunossupressão, que impede a destruição maciça do pâncreas pelos auto-anticorpos dos pacientes. Os resultados ainda são iniciais e não sabemos como será a evolução deles. Mas a expectativa em relação a esta linha de pesquisa é muito grande e devemos aguardar a expansão dos estudos. As células tronco constituem-se em outra tecnologia promissora, mas ninguém sabe ao certo o tempo necessário para o andamento das pesquisas. Além delas, muitas outras linhas de pesquisa têm sido desenvolvidas no sentido de causar “regeneração” das células beta pancreáticas. No caso do diabetes tipo II, após o completo seqüenciamento do genoma humano em 2003, os cientistas identificaram pelo menos mais sete novos genes associados à susceptibilidade para o diabetes não insulino-dependente. Com a identificação genética do diabetes, estaremos perto de alcançar o diagnóstico precoce da doença, antes mesmo de sua manifestação. Com o desenvolvimento de terapias gênicas e de novos medicamentos, a tão sonhada cura da doença pode estar próxima.


SERVIÇO:

CITEN - Centro Integrado de Terapia Nutricional
Endereço: Rua Vergueiro, 2564.
Conjuntos 63 e 64
Vila Mariana
São Paulo-SP
CEP: 04102-000
Telefone: (11) 5579 1561/5904 3273.
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