O sucessos dos transplantes em Minas Gerais

3/7/2002 - Comunidade DiabeteNet.Com.Br


Em um ano de atividade a nossa unidade de transplantes realizou 36 transplantes duplos, 16 pancreas isolados e 125 transplantes renais. Do total de transplante de pâncreas, 26 casos foram este ano.

Quando e como se iniciou o programa de transplantes de pâncreas no Hospital Felicio Rocho e como ele se encontra atualmente ?

O Programa de Transplantes do Hospital Felício Rocho (HFR) se iniciou baseado em minha experiência adquirida na Universidade de Miami. A minha formação é baseada no conceito completo do especialista em transplantes. Ou seja, tenho conhecimento e formação para realizar a avaliação pré-transplante, todo o ato cirúrgico (ou seja, os transplantes de pâncreas, rim e fígado) e todos os protocolos, e um equipe multidisciplinar composta de 2 cirurgiões, 2 nefrologistas, 1 hepatologista, psicóloga, 3 enfermeiros e assistente social foi constituída. A Unidade de Transplantes do HFR é uma cópia da Unidade de Transplantes da Universidade de Miami, com os mesmos protocolos e trabalhando como um centro satélite da mesma, já que continuo licenciado daquele serviço. Atualmente temos uma área física de 10 leitos, mantemos uma média de 4 a 6 transpplantes de pâncreas por mês e, segundo os dados do Registro Brasileiro de Transplantes, já somos o centro mais ativo de transplante de pâncreas e pâncreas-rim no pais.

Quais são os critérios exigidos pela sua equipe para o transplante e caso o paciente se encaixe nesses critérios como deve proceder ?

Uma extensa avaliação pré-operatória é realizada , e acredito ser similar aos diversos centros de transplantes dos Estados Unidos. Caso o paciente apresente os exames dentro de um padrão mínimo de normalidade, procedemos para listá-lo. Somos bastante liberais para listar os pacientes, visto que acreditamos que os centros com experiência são aqueles que devem assumir as responsabilidades e os riscos que envolvem os casos mais complexos. Estando o paciente com os exames finalizados, os mesmos são listados, e temos a enorme vantagem de ser o único centro credenciado nos estados de Minas Gerias, Rio de Janeiro e Espírito Santo; o que centraliza a oferta de órgãos para o nosso serviço.

Quanto custa um transplante de pâncreas ?

O Hospital Felício Rocho é uma fundação que atende pacientes do SUS, de convênios e particulares. 75% de nossos transplantes de pâncreas são realizados pelo SUS, com custo zero para o paciente. Alguns convênios se negam a pagar o procedimento, e nestas situações não hesitamos em realizar o procedimento pelo SUS. Para os convênios e particulares, o custo de despesas hospitalares para o transplante isolado de pâncreas varia de R$15.000,00 a R$ 20.000,00 e para o duplo de R$ 25.000,00 a R$ 30.000,00. Quanto à equipe médica, os valores vão de R$ 15.000,00 a R$ 20.000,00.

Como se encontram atualmente os pacientes transplantados por sua equipe ? E qual o índice de sucesso que vocês têm obtido com os transplantes ?

Dos 36 transplantados duplos, temos uma sobrevida de pacientes de 87%. Os motivos principais de óbito foram infecção e alterações cardiovasculares. A sobrevida do enxerto foi de 84%. Nos transplantes de pâncreas isolado, a sobrevida de pacientes foi de 100% e do enxerto foi de 85%. Todos estes resultados se referem a 1 ano, e vale notar que os resultados dos últimos 26 casos foram melhores do que a primeira metade dos casos. Esta diferença é a chamada curva de aprendizado, que qualquer serviço (independente do país) passa. O transplante de pâncreas é um procedimento complexo, realizado em um paciente com múltiplas variáveis médicas, o que o torna ímpar se comparado a qualquer outro transplante.

Qual a maior dificuldade encontrada por vocês para a realização dos transplantes de pâncreas ?

Quanto ao ato cirúrgico, não temos muitas dificuldades. O nosso tempo cirúrgico é em média de 04:30 hs para os transplantes duplos e de 02:30 a 03:00 para o de pâncreas. Acredito que as dificuldades podem advir das múltiplas seqüelas cardiovasculares que o diabetes causa ao longo dos anos nestes pacientes. Acreditamos que uma equipe de anestesistas de qualidade seja essencial para o sucesso do ato cirúrgico. A minha opinião é que o pós-operatório é de fato a parte mais complexa de todo o procedimento, e é neste momento que a experiência e treinamento da equipe com o método podem fazer a diferença.

Como está o programa de doação de órgãos em Minas Gerais? Qual o grau de dificuldade para obtenção de um pâncreas para transplante?

O MG Transplantes tem feito atualmente um trabalho melhor do que nos anos anteriores, mas ainda está longe do ideal. As doações aqui em Minas variam bastante. Por exemplo, em abril deste ano realizamos 7 transplantes, mas desde meados de maio, não temos nenhum doador. Não há uma regularidade no número de doações, mas acredito que as causas são multifatoriais: é preciso notificar mais ( e isto é um dever de todos nós, médicos ), é preciso trabalhar mais intensamente para que aqueles potenciais doadores não percam as condições clinicas e é preciso educar-se mais para que a incidência de negativas familiares diminua. Enfim toda a sociedade precisa se unir para juntos melhorarmos as nossas doações. No momento, já temos mais de 120 pacientes listados para transplantes duplos e de pâncreas isolado, e a média de espera depende muito do grupo sanguineo.

Atualmente, o suco pancreático (drenagem exócrina do pâncreas) é colocado no intestino (drenagem intestinal) ou na bexiga (drenagem vesical) nos transplantes duplos. Qual a técnica que o dr. utiliza?

Nós continuamos fiéis à drenagem vesical, o que é uma herança adquirida da Universidade de Miami. Como tudo na vida, tudo tem as suas vantagens e as suas desvantagens. A vantagem ímpar da drenagem vesical é poder ter a medida da amilase urinária, que é indiscutivelmente o parâmetro mais fidedígno do funcionamento do enxerto pancreático. Em nossa experiência na Universidade de Miami, em 7 a 10% dos casos, a única alteração clínica e laboratorial existente foi a queda da amilase urinária, o que nos motivou a realizar biópsias e tratar as rejeições diagnosticadas. Estamos cientes das desvantagens, em especial a hematuria, a desidratação e maior risco de infecções urinárias. A drenagem intestinal é evidentemente mais fisiológica, mas exige que se tenha um radiologista experiente para realizar o ultra-som, um patologista com capacidade para interpretar as biópsias e em especial experiência para realizar as biópsias. Quanto ao transplante de pâncreas, não resta dúvida na literatura de que a drenagem deva ser na bexiga, pois não temos o rim como “sentinela”. Enfim, acredito que a drenagem a ser realizada depende de sua experiência com o método, de sua estrutura hospitalar, e de fatores específicos de cada paciente, que podem levá-lo a realizar uma ou outra técnica.

Nos Estados Unidos existem muitos protocolos, de grandes centros, suspendendo o uso de corticóides no Transplante de Pâncreas Isolado, mas os resultados ainda não foram apresentados. Sabe-se dos efeitos colaterais do uso continuado de corticóides tais como o risco de câncer. O transplante de fígado já suspende o uso de corticóides. O senhor pretende suspender o uso dos mesmos?

Não há nenhum trabalho cientifico publicado sobre a suspensão do uso de corticoides, mas já discutí esta conduta com vários colegas americanos. Em primeiro lugar, a quantidade de imunossupressores que os americanos utilizam nos primeiros 3 meses ( período de maior risco de rejeição ) é de fato muito maior do que a por nós utilizada, possibilitando a princípio a suspensão dos corticoides. Em segundo lugar, os riscos de uma rejeição crônica subseqüente à suspensão desta droga somente será detectado a médio e longo prazo, e não existe nenhum centro americano com esta casuística ao longo dos anos. Em terceiro lugar, acho que o corticóide isolado não é o único fator de risco para as doenças linfoproliferativas após transplantes ( leia-se câncer ). A imunossupressão de um transplante de pâncreas consiste de uma indução, e do uso de 3 drogas, que combinadas agem somando efeitos para bloquear a rejeição. A sabedoria e o bom senso clínico nos direciona a utilizar esta combinação, maximizando a ação destas drogas e minimizando os seus efeitos colaterais. São todos os imunossupressores que em conjunto aumentam o risco de câncer e seria injusto colocar todo o pêso somente nos corticóides. Além disto, após 3 meses, é possível diminuir bastante a dose dos mesmos, e minimizar os efeitos colaterais. No caso do transplante de fígado, sabe-se que o mesmo é um órgão bem menos imunogênico, e após 3 meses pode-se tranqüilamente suspender os corticóides. A minha conduta é a de manter os corticoides, mas com certeza reduzir o mais precocemente possível a dose dos mesmos para minimizar os efeitos colaterais. Tão logo novas drogas imunossupressoras estejam disponíveis, acredito que poderemos iniciar a suspensão dos corticóides após 3 meses de transplante.

Qual sua opinião a respeito do transplante de Ilhotas?

Acho que a idéia que sustenta o transplante de ilhotas é fantástica, mas na prática ainda existem vários problemas, sendo os dois principais o isolamento das mesmas e a sobrevida das ilhotas ao longo dos anos. O centro de Edmonton apresentou em abril de 2002 uma casuística de 33 pacientes sendo que todos receberam no mínimo 2 órgãos, já que um não forneceria um numero suficiente de ilhotas para estabelecer a normoglicemia. A sobrevida destas ilhotas em 1 ano é de 87,5 % e em 2 anos é de 70%, e resta ainda saber como serão os resultados em 5 anos.

As vantagens principais seriam o risco cirúrgico mínimo, menor incidência de infecções e menor tempo de internação hospitalar. As desvantagens seriam o alto custo; o fato de se utilizar 2 ou mais órgãos para um único receptor ( considerando-se a discrepância entre a oferta e a demande de pâncreas ), a necessidade de também se utilizar imunossupressores, e em especial não termos ainda nenhum trabalho com 5 ou mais anos de experiência no método, para que então possamos de fato comparar com os transplantes de pâncreas realizados atualmente.

Qual conselho o senhor daria aos diabéticos que desejam fazer o transplante de pâncreas?

O meu conselho para os diabéticos que desejam fazer o transplante é o seguinte: é preciso individualizar as indicações e avaliar caso a caso as vantagens e desvantagens do transplante. O transplante é uma excelente opção desenvolvida pela medicina moderna, mas que, como tudo na vida, não é um método perfeito e que somente tenha vantagens. Sempre coloque na balança os pontos positivos e os pontos negativos da doença e do transplante , e ficará claro o momento certo de avançar para o transplante. Nós, médicos, devemos orientar de modo honesto e realista ao paciente tudo aquilo que o método tem de bom e de ruim. O consenso na literatura atual é o de que se o paciente já apresenta lesões em órgãos-alvo ( leia-se retina, rins, aparelho carovascular e neuropatia ) e/ou uma grande labilidade do diabetes a ponto de deteriorar claramente a qualidade de vida, o transplante passa a ser uma opção a ser considerada, visto que o descontrole sobre a doença inevitávelmente levará a seqüelas cada vez mais graves. Quanto ao fato de ser um transplante de ilhotas, de pâncreas isolado ou de pâncreas-rim, o momento e as complicações da doença determinarão a melhor opção a seguir.
A Comunidade DiabeteNet.Com.Br tem como finalidade informar e interagir com os seus usuários. Antes de qualquer decisão ou atitude, é indispensavel a discussão sobre os pontos aqui abordados juntamente com médicos de sua confiança.

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Comentários sobre este conteúdo

  • Vânia
    5/2/2009 - 10:56

    Ótimo conteúdo

  • celso josé alves
    7/10/2009 - 10:16

    pergunta:
    quero obter informações sobre progra de voluntario da ufu(uberaba) sobre transplante de pancles.
    aguardo resposta.

  • celso josé alves
    7/10/2009 - 10:17

    pergunta:
    quero obter informações sobre progra de voluntario da ufu(uberaba) sobre transplante de pancles.
    aguardo resposta.
    obs: diabetes tipo 2.

  • Ana
    15/10/2009 - 17:46

    SOU DMTI A 30 ANOS TENH HJ 39 ANOS.NO COMEÇO DE NEFRO/NEURO/VISÃO RUÍM. GOSTARIA DE SABER SE SERIA POSSIVEL UM TX. DE ILHOTAS. E QUANTOS CUSTA??? AGUARDO RESPOSTAS ABRAÇOS
    ANA.16/10/2009

  • Anderson
    5/6/2010 - 23:19

    tenho diabetes tipo 1 e quero sabe seja existe cirurgia para a cura? Em que lugar que se faz acirurgia e quantocusta?

  • leone
    24/2/2011 - 17:32

    gostaria de saber como posso me cadastrar para um transplante de pancreas e aonde posso encontrar um posto de transplate

  • Maluany Alessandra
    29/3/2011 - 11:40

    Olá. Sou maluany portadora de diabetes melitus tipo 1 há 14 anos e gostaria de esclarecimentos sobre trasnplante de pancreas. Tudo o q é necessario para a realização do mesmo. Quanto custa e se existe algum tipo de fila.
    Desde já Grata.
    Maluany A. Sales

  • elaine
    29/6/2011 - 17:58

    ola, minha mae tem diabetes tipo II e tem muita dificuldade de controle ja foi prescrito ate insulina para ela , buscando uma qualidade de vida melhor para ela gostaria de saber como e onde se faz esse tipo de trasplante pelo sus desde ja agradeço
    att elaine

  • Maria Alice Samuel
    8/7/2011 - 09:56

    Sou de Moçambique, Maputo, meu filho é diabético de insulina. Gostaria de saber qual a possibilidade de um transplante aí e tbém de doador do pancreas como estrangeiro isso fica muito caro? Muito obrigada.

  • Maria Alice Samuel
    8/7/2011 - 10:00

    O artigo está muitissimo bem escrito obrigada por toda a informação. É muita pena eu estar tão longe.

  • Wanessa Livramento
    27/7/2011 - 22:56

    Adorei o artigo, mas gostaria de saber qual é a possibilidade de vocês realizarem esse tranplante no meu irmão,pois nós somos de SP,ele tem diabétes tipo1 à 18 anos e hoje com 34 anos de idade ele se encontra sem visão, fortes dores de neuropatia mas ao mesmo tempo não sente os ´pes e as pernas a ponto de sofrer quebraduras e não sentir dor de fratura. Tá muito difícil!!!

  • Jorge Zandamela
    8/9/2011 - 05:38

    Sou Jorge Zandamela, de moçambique,de Maputo gostei muito do conteúdo do artigo, é optimo, sou diabético a 10 anos, tenho 40 anos, de a dois anos a minha qialidade de vida deteriorou, tou com dores de neuropatias deficiencias na visão, será que posso aderir ao vosso programa de transplante do pancreas? estou desposto a pagar desde que me diga todas as despesas quero mehorar a minha quelidade de vida. anciosamente aguardo a resposta

  • DANIELA
    11/1/2012 - 21:16

    GOSTARIA D ESCLARECIMENTOS P/ Q MINA MAE POSSA OPERAR, ELA TEM DIABETES II,COMO CONSEGUIR PELO SUS? PRECISO LEVA LA ATE UBERABA PARA SER AVALIADA?
    TEM Q CHEGAR CEDO E QUANTO PRECISO EM DINHEIRO?
    POR FAVOR DEVOLVAM A VIDA NORMAL Q ELA TINHA
    OBRIGADA

  • hueliton
    24/9/2012 - 06:34

    tenho diabetes tipo 1 a mais ou menos 7 anos,tenho apenas 25 anos e sou de MG ,fiquei bem interesado no assunto,como funciona a fila de espera,e se pacientes com tipo 1 geralmente fazem trasplante de pancreas e rin ou só de um ?
    quanto sai o valor final para quem tem convenio com o SUS ?
    E quem não tem comvenio ?

  • José pereira da Silv
    4/11/2012 - 14:56

    Otimas informações e a população precisa sim destas OK!

  • Marcia
    12/7/2014 - 04:34

    Quem quiser saber sobre transplante de pâncreas e pâncreas e rim e como se inscrever na lista deve ligar para o telefone 11 3541-1269 ou 11 3541-1698 e conversar com o enfermeiro Márcio.

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